Segunda, 30 de Março de 2020.
Tenho observado o medo. Meu, nosso, da nossa humanidade. E a maneira que temos de manifestá-lo. Vivemos um momento de isolamento, ao mesmo tempo sendo bombardeados por estatísticas, notícias alarmantes, que gritam aos quatro ventos anunciando que a "Morte" existe. Que ela pode chegar a qualquer momento, em qualquer lugar, para qualquer idade, para qualquer pessoa. Não importa a "raça," nacionalidade, condição social, nível educacional, opção sexual, religiosa, ideológica. Não sabíamos disso?
Foi preciso um mensageiro invisível, silencioso, mas com uma força de propagação capaz de atingir o planeta, para despertarmos. Fomos obrigados a um isolamento para termos tempo de perceber e diferenciar o real, da ilusão.
Para entendermos o que é ser protagonista, cidadão. Ter responsabilidade e comprometimento, independente do trabalho que faça, da função que exerça. Seja na linha direta da ajuda, do auxílio, onde se encontram todos os profissionais da área de saúde. Sejam os profissionais que garantem a limpeza das nossas cidades. Os que garantem a nossa segurança. Os caminhoneiros que garantem o abastecimento dos produtos essenciais para a nossa sobrevivência. As empresas que se mantém ativas, os laboratórios, as universidades com professores e alunos debruçados em livros, lâminas, olhos ardendo diante do computador, onde o conhecimento tem pressa, porque a cura não pode esperar. Seja no meio político onde medidas precisam ser tomadas, onde tudo é urgente, é cobrado, onde se faz necessário olhar o pedaço e decidir pelo todo. Tudo é novo para os nossos representantes. Sim, para eles também. Até o medo da morte. A ilusão de poder, de riqueza, fama, tudo está sendo questionado. O que de fato deles é esperado? Uma oportunidade única para qualquer cidadão que tenha vontade de seguir carreira. Uma visão clara, lúcida, de que ser político, governante, é antes de tudo ter missão, valores, compromisso humanitário.
E cabe a nós, um comportamento maduro e equilibrado diante da gravidade do momento.
Os comentários que faltam com o respeito, não acrescentam, não agregam. A crítica feroz dissemina o ódio, a desesperança, num momento em que precisamos de capacidade reflexiva.
O nosso medo projetado na classe política, seja através da ira direcionada para a direita ou esquerda, fala muito de nossas frustrações, limitações, onde não conseguimos chegar, quem não conseguimos ser. Mas, principalmente, do nosso desespero ao perceber que eles, os políticos, não tem o poder de nos salvar.
Yone Teles Vilela
